quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O cidadão tá numa dureza danada, acorda de madrugada, vai pra fábrica de sapatos, de oito a doze horas cheirando a couro e cola de sapateiro, ouvindo máquinas costurando, almoça uma marmita requentada, volta pra casa, vê a novela, bebe uma pinga e dorme. Sonha com a megasena, sabe que um dia vai ganhar, sua avó lhe confirmou, em sonhos, muitos deles, que os números das dezenas das datas de nascimento dele, da mulher e dos filhos - quatro - era batata, um dia ia sair porque o pastor da igreja lhe garantiu que o seu senhor era fiel. Toda manhã, mesmo no inverno congelante de Novo Hamburgo, ele acordava suado, rezava um padrenosso e uma avemaria antes mesmo de acender o primeiro cigarro, que fumava ainda em jejum. Não podia esquecer de fazer o jogo, que estava ficando caro demais pro seu salário. Mas era batata, Vovó Gertrudes sabia o que dizia, já estava lá, ocupando seu lugar ao lado do Homem! Toda semana entrava na loja lotérica Esquina da Sorte e fazia o mesmo jogo. Um dia, como tinha vendido a bicicleta porque agora tinha o cartão do vale-transporte, estava com um troco no bolso, resolveu ajudar o esforço da vovó e comprar o bolão que a Diane sempre lhe oferecia toda a vez que ia fazer o jogo. Foi pra casa com os dois recibos, o do bolão da Esquina da Sorte e o do jogo da Vovó.
Aconteceu que não sonhou mais com a simpática velhinha. Ele era seu neto favorito, o que lhe buscava as pantufas, ligava o rádio, essas coisas que fazemos para as vovós, quando elas querem. E fazia uma sopa deliciosa. Mas não sonhou mais com ela e foi ficando preocupado - será que ela estava zangada por ele ter comprado a cota do bolão, um jogo proibido pela Caixa Econômica Federal, a dona das Loterias oficiais? Será que ela pensou que ele não fazia fé no taco dela, no seu poder de conseguir as coisas com jeitinho? Será que ela nunca mais ia aparecer em seus sonhos pra dar aquela força? Nem trabalhava mais direito, perdeu a fome, não dormia. Foram alguns dias de insônia, a mulher pensando que era alguma sirigaita que andava ciscando em seu terreiro, os filhos levando uns cascudos à toinha, barba por fazer. Aí, o sábado chegou e a loteria sorteou os números e ele descobriu que era um dos 23 compradores do bolão da Diane. Só podia ter sido conselho que o chefão lá de cima deu pra vovó, mandou ela fazer com que eu comprasse o bolão que ele ia dar o jeitinho, mas tinha que ser com mais gente, senão pegava mal. Pra ele ganhar sozinho não dava não, isso era trabalho do inimigo! Era domingo, fez a barba, vestiu seu terno de missa, acordou a família e foram em fila indiana, pelo acostamento, pro grande templo. Não disse nada a ninguém mas queria agradecer à Vovó. Quando saíram, quis dar uma passadinha no shopping "pra olhar as vitrines". Seus olhos brilhavam a cada calça de microfibra, cada tênis americano, cada relógio dourado. Queria resolver na hora mas não podia ainda, como comprar antes de receber o prêmio? Nem cartão de crédito tinha mais!
Segunda-feira, o dia D!

Acordou mais tarde do que de costume e rumou pra Esquina da Sorte, que esperou abrir com mais alguns felizardos, que já até tinham gastado por conta. Mas nada da loja abrir. Não tinha levado a marmita, ia almoçar na churrascaria mais cara da cidade! Foi pra agência da Caixa e esperou também. Foi falar com o Gerente, queria abrir uma poupança que ele pudesse sacar quando bem quisesse. Foi quando soube que não houve ganhadores naquele sorteio - ficou acumulado! E agora? Como pode? O dono da loja lotérica lamentou: o jogo não foi feito. Foi falha humana - a funcionária esqueceu de registrar os jogos do bolão no sistema. A funcionária? Quem? A Diane? Aquela morena que eu queria pra casar e fugir pro Uruguai assim que botasse a mão na bolada? Toda a semana eu dizia isso pra ela, que ria e respondia: boa sorte! Tem só 21 anos, e daí? Eu tenho mais de cinquenta mas tô forte ainda, com esse dinheiro todo no bolso então... E agora? Querem matar ela! Querem que ela vire cinquenta e dois milhões de reais! Como pôde? Pôde. É claro que pôde.
Tenho certeza absoluta que é coisa da vovó Gertrudes...

INFERNO ASTRAL

"PRA QUEM GOSTA DE UM BELO TEXTO"

"Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.

E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!

A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... Casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente vem aqui pra dentro que o café está na mesa.

Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... Tudo sobre a mesa.
Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... Era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!.. – ninguém quer entrar mais.

Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas.. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite...

Que saudade do compadre e da comadre!"


ZÉ MEI manda notícias da paulicéia: o PSDB vai dar um golpe de mestre! Aguarde! Fiquei seriamente preocupado: o que será que o Vampiro está aprontando dessa vez? Um novo programa para afogamento de deficientes físicos, ou melhor, pessoas portadoras de necessidades especiais? Vai ter que arrumar pra todo mundo de lá, pois todos os paulistas andam precisando de necessidades especiais (ou melhor, falando na linguagem local ou roaming: duas "necessidade especial"): um governador pro estado e um prefeito pra capital. Imagino que a grande novidade seja o Vampiro pro segundo mandato e a estréia do Aécio na lista dos perdedores da dupla PsDemb. Mas vamos deixar esse assunto pra depois, temos muito tempo, não é, Vampirão?

Junto com a tal surpresa ameaçadora, Zé Mei mandou esse texto falando dos efeitos colaterais da tecnologia.

O texto é muito mais bonito que a realidade. Já faz tempo que não se vai a pé pra lugar nenhum. Ainda peguei os últimos bondes ou o trólei, o chifrudo ou “assassino silencioso”, pois em algumas ruas de mão única para os carros ele andava na contramão e como era elétrico, não fazia barulho nem soltava fumaça, se algum incauto sisquecesse de olhar pros dois lados, babau!

A televisão também já tinha chegado mas ainda não tinha programado efeitos tão colaterais: não atrapalhava ainda a visitação, tanto de parentes como de amigos ou vizinhos. Acho que até estimulava. A censura etária era exercida pelos nossos pais mesmo, apesar da programação ainda não assumir a função de “sexual personal trainer” como as novelas dais seis, sete, nove ou dez de hoje em dia. Quer ver a melhor sacanagem? Liga a televisão no horário das novelas! Muito mais interessante do que assistir a um filme pornô de verdade, daqueles de quarto de motel. Sexo só é bom com historinha, imoral ou pervertida, como bem nos ensinou Nelson Rodrigues. Mas a realidade a que me refiro, mesmo naquela época, era a "satisfação" de receber uma visita noturna sem aviso - e um monte de gente, só faltava o cachorro! Não era bem assim...

Alguém da família tinha que se ausentar sorrateiramente, correr até a padaria antes que fechasse e comprar pão quase fresco, refrigerantes pras crianças, cervejas pros adultos... Era uma trabalheira! As crianças ficavam segurando o riso com os dedinhos, de saco cheio! As mães mais modernas permitiam que fossem brincar na calçada ou no quarto "das meninas"! Mas de vez em quando ia lá dar uma espiadinha, à guisa de mostrar um novo vestidinho que tinha comprado pra Vandinha. Os rapazes sempre davam um jeito de jogar uma bolinha, de meia ou de gude, no quintal da casa ou no corredor do prédio. Ou um bafo-bafo. Sempre saía porrada. E na hora de ir embora, os que ficavam fofocavam sobre o vestido "demodé" da comadre, a empáfia do cumpadre porque foi promovido na repartição - e ía comprar um carro, grande, praquela gente toda. Só as crianças eram honestas: o que tinham que falar, falavam na lata. Levavam uns tabefes por isso, criança não tinha direito à opinião. Mas opinavam, algumas. Outras iam guardando suas reminiscências que as transformariam em adultos irrascíveis, ou simpáticos pedófilos ou até serial killers. Quem sabe, síndicos que não largam o osso? Ou torturadores. Tá certo, estou exagerando, mas só um pouco, é o inferno astral. Daqui até o aniversário, um mal humor digno daquele sargento do Recruta Zero.

Não tinha coisa boa? Tinha: o cachorro-quente!

Zé Mei me mandou o texto sem mencionar o autor. Acho que foi ele mesmo quem escreveu tão poético retrato da classe média brasileira.

Poetas, como os guitarristas, são assim mesmo...