São João (saca a intimidade...) é uma gracinha, acho que a cidade mais bonita das Geraes. Já estive lá duas vezes, com uns 20 anos de distância e, por incrível que pareça, acho que melhorou com o tempo, coisa rara em cidades brasileiras. Na primeira vez saí de Campinas no fusquinha da segunda dama e fomos para lá na Semana Santa, sem reservar hotel nem levar barraca de camping. Minha idéia era, se não conseguisse hospedagem, zarpar para Tiradentes, que ainda não estava na moda.
Saimos na quarta-feira (nessa época a quinta-feira santa era feriado bancário) e fomos indo, provando umas caninhas aqui e ali, pela “rodovia” Fernão Dias. Meu anjo da guarda entrou de licença depois dessa viagem. Assim, passando por diversas cidadezinhas pra beber água, chegamos lá no início da noite e só achamos quarto num hotel onde Chica da Silva fazia programas antes de enricar no arraial do Tijuco. Pia no canto, banho e tosa no corredor. E uma janela que dava para uma espécie de praça na beira do rio que corta a cidade.
Normal, mas nessa praça tinha um coreto, que se não tinha música na parte de cima, na de baixo, tinha um... BAR! Que só servia para os clientes a cerveja geladíssima (MALT 90, fazer o quê?), ótimas pingas (brancas e amarelas) e espetinhos de queijo parmezão da roça ou de qualho, frango, filézinho e uma linguiça de fazer vigário largar batina, tudo fabricado na fazenda do dono da casa (menos a cerva, é claro). Bem, chegamos no hotel (acho que o nome era Brasil, bem apropriado...) e o recepcionista era um coroa forte ainda mas sem um braço. Devia ser o campeão de porrinha da cidade.
Banho tomado (frio, pra acalmar os ânimos) fomos dar uma volta na cidade e percebemos que ia ser muito difícil andar de carro por alí: as ruas de acesso à garagem onde o fusca ficou hospedado estavam todas fechadas, com o pessoal começando a decoração para a passeata de sexta-feira santa. Beliscamos algumas delícias – bolinhos de bacalhau, queijos, pasteis, essas coisas de turista bebum. E, quando voltamos fomos tomar uma saideira no coreto, já bastante frequentado. Provamos de todos os petiscos e biritas da casa até a meia noite, quando os espetinhos carnívoros sumiram da chapa. Fui o único a reclamar, argumentando com minha condição de ateu, agnóstico, socialista, existencialista e o escambau - uma lista digna da geração-cinema-novo. Não teve jeito, combatemos com o queijinho mesmo, que, a cada pinga ficava mais gostoso. Fomos dormir de madrugada, acho que toquei alguns paulinhos da viola num Del Vechio que apareceu do nada, antes de me retirar trocando as pernas. Tocar Milton Nascimento em Minas é chover na lagoa.
O resto do feriado? Um lento processo de paixão crescente por aquela cidade, suas casas, sua gente, sua culinária, sua cultura e artesanato. Ah, e o rio que está quase se transformando num florido jardim com um valão no meio e continua lindo, como constatei vinte anos depois, quando voltei lá mas fiquei hospedado em Tiradentes. Acho que, sem contar com as de sétimo dia, foi a última missa que assisti voluntariamente, queria saber como era na sexta-feira santa uma missa no estado mais católico (e por isso mesmo, mais sacana...) do país.
Nesse feriadão conheci bastante o centro histórico de São João, andei tudo a pé. Sábado fui a Tiradentes, de maria-fumaça, uma viagem bem legal. E também adorei a cidadezinha, saí de lá na dúvida de onde morar no futuro: São João Del Rey, uma cidade orgulhosa, com ares de metrópole, ou Tiradentes, a ideal para quem não quer fazer mais nada na vida que não seja bastante prazeiroso: comer, beber, amar, musicar, de preferência, fazer tudo isso numa rede na sombra. Pensa que não cansa?
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