Há muito eu resolvi não contribuir com qualquer tipo de caixinha de Natal nem dar esmolas nem gorjetas quando não sou obrigado a isso. Considero a determinação de porcentagem do valor da conta da birita para a gorjeta do garçom uma aberração. No meu entender, o estabelecimento comercial tem a obrigação de remunerar dignamente seus funcionários de atendimento e não sobretaxar os clientes para não pagar salários - sim, acredito que a maioria absoluta dos bares e restaurantes não pagam salários, os garçons vivem das gorjetas. Tudo bem, é uma opção de vida, mas obrigar o cliente através de constrangimento é sacanagem. O nosso imaginário bebum previne: se não der a gorjeta, no próximo porre ele vai cuspir no nosso copo! Tudo é possível ao ser humano.
A gorjeta está na CLT. Talvez algum leitor com formação na área jurídica possa esclarecer melhor essa engronga. Para mim é a oficialização da fraude trabalhista. Imaginem se os vendedores de butiques cobrassem um gole pra pegar uma cueca no seu número, os farmacêuticos recusando o remédio da receita se não garantirmos sua dose, os da padaria incluíssem a gorjeta no pão de cada dia. O padre passa a sacolinha, apesar da riqueza vaticanesca. E eu nunca me senti na obrigação de pingar alguma coisa ali. Mas ninguém precisa se preocupar com meus amigos garçons, vou continuar gorjetando como sempre, principalmente depois de ver na Wikipédia que a origem dessa prática é recompensar o bom serviço prestado patrocinando a bebida do, digamos, trabalhador. Alguns nem esperam acabar o serviço...
Conheci muitos garçons na vida, desde o Fuinha,do botequim pé-sujo dos portugueses Seu Antônio e sua esposa Dona Maria (sem maiores detalhes, como o bigode da empresária, por favor). Fuinha servia no balcão e nas poucas mesinhas de fórmica do "salão". Onde me apaixonei pela tainha frita dos dias de feira ou da desova, quando o mar, sabiamente, invade o canal do Jardim de Ala para carregar as peixas grávidas. Os pescadores ficam sobre as pontes do canal, com suas redes. O Ibama nunca passou por lá, devem ser fãs de tainhas fritas. O melhor tira-gosto do mundo! Compenhagem voltou a ser chocolate... O estabelecimento ficava numa das lojas sob o primeiro prédio do Conjunto Residencial dos Jornalistas, conhecido como Jornas, hoje batizado Condomínio Jardim de Alá. Dizem que alguns roqueiros queriam mudar o nome para Jardim de A-ha. (esses ataques de paulistice ainda vão me deixar mal perante a academia...)
No Garden, no final de Ipanema - e não no início, como quiseram nos convencer o cesarmaia e sua equipe arquitetiva para nos empurrar goela abaixo aquela passarela do nada a lugar nenhum e o aboiolado obelisco do Bar Vinte - retornando, no Garden, que fica na esquina de Av. Epitácio Pessoa com Visconde de Pirajá, conheci diversos garçons que se tornaram ícones, como o Napoleão, o Chico, o Braulio, o Zé, enfim, uma equipe que merecia não apenas os 10% (brasileiro adora porcentagem...) da despesa, merecia a metade do faturamento do bar!
No Leblon conheci o Gatão, que depois se tornou proprietário, e seu sobrinho Menudo - faz tempo que não os vejo. O Paiva do Jobi aposentou-se recentemente, o Chico do Bracarense virou dono do bar Chico & Alaíde. Mas ainda estão lá o Dirceu, um dos maiores tiradores de chope que eu conheço, o Aroldo, o Vicente...
Tem os garçons do Degrau e do Le Coin, que eram dois e agora ficou apenas um, com dois no nome. Não entendeu? Vai lá, esquina de San Martin com Cupertino Durão.
Na Casa Clipper tem o Romário e o vascaíno do cafezinho matinal e do chope vespertino - misquici o nome dele, quem manda colaborar para a nossa amnésia alcoólica?
No boteco que virou oficina na Rua Martins Pena esquina de Professor Gabizo tinha o Mãozinha, que ficava puto se o chamassem por esse apelido inspirado em sua mão tortinha. Era o único momento em que o Moacyr perdia a gentileza. Comecei a chamá-lo de Little Hand e ele adorou! Expliquei a ele que esse era o nome de um garçom anão que servia o Toulouse Lautrec no seu bar preferido das madrugadas parisienses... Túlú o que?
Não vou ser hipócrita de dizer que todos se tornaram meus amigos, digamos, do peito, ou coisa assim. Sou solidário, não arredo o copo até encerrarem o expediente em alta madrugada, mas não tenho o costume de chamá-los para "tomar a saideira lá em casa".Se trocam de bar, não os vejo mais. E isso geralmente acontece com aqueles que trabalhavam em bares que já se foram, como o Luna, o Real Astória (do Leblon), o Boaventura (ótimo boteco que virou... sei lá mais o que!), o Senegal, o Gatão e seus derivados, o Flor do Leblon, o Manguaça... Eram ótimos garçons, grandes figuras humanas que não sei para onde foram.
Essa característica dos relacionamentos torna os garçons amigos especiais, com cartão de ponto, que os fregueses normais tem que obedecer, mas os "da casa" fazem uma hora extra com a água nos pés...
E as caixinhas? Todo o fim de ano tem a gorjeta dos entregadores de jornais e revistas, agora até o carteiro manda seu envelopinho. Uma gratificação extra para cumprir sua tarefa? Sou malvado não, me preocupa o tom de ameaça que essas coisas contém - são flanelinhas? Todos têm contato com uma firma que os contrata. Busquem a oficialização de sua função, com vínculo empregaticio. Façam movimentos para aumentar o salário. Lutem pela a garantia de emprego justa ou mantenham um direito de greve responsável na CLT. Mas parem de cobrar seu 13º salário dos usuários de seu trabalho, que não tem nada a ver com isso. Ou me façam mudar de idéia!
Existem dois serviços na Internet que prestam valiosa contribuição à comunidade: o Google e a Wikipédia. Não passavam listas. Hoje ví que a Wikipédia está solicitando ajuda. Vejo a idéia de uma enciclopédia gratuita e disponível 24 horas por dia um avanço da humanidade. Sei de seus problemas, sua difícil credibilidade - que não é problema dela, é do homem. Se algum idiota quiser colocar uma besteira lá, o erro não é dela. Mas a solução é e está em pleno vapor: os colaboradores sérios corrigem a idiotice. Publico o texto abaixo, para reflexão. Não é uma gorjeta, é uma colaboração para que não se perca essa idéia, tão importante para a democracia da informação. Feliz Natal!
"Um apelo do fundador da Wikipédia, Jimmy Wales
Hoje, eu estou a pedir uma doação para a ajudar a Wikipédia
Iniciei a Wikipédia em 2001, e nestes oito anos, tenho ficado humildemente surpreso ao ver centenas de milhares de voluntários se unirem a mim para construir a maior enciclopédia da história humana.
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A Wikipédia mostra o poder de pessoas como nós que conseguem fazer coisas extraordinárias. Pessoas como nós escrevem a Wikipédia, palavra a palavra. Pessoas como nós a mantêm. É a prova que temos o potencial colectivo para mudar o mundo.
Necessitamos proteger o espaço onde este trabalho importante é desenvolvido. Necessitamos proteger a Wikipédia. Queremos mantê-la grátis e livre de publicidade. Queremos mantê-la aberta - você pode usar a informação da Wikipédia para qualquer coisa que queira. Queremos que ela continue crescendo, espalhando o conhecimento por todos lugares, convidando à participação de todos.
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Jimmy Wales"