Quando eu jogo Copas ou paciência Spider fico achando que dentro da CPU tem um salão de sobrado quase em ruinas, daqueles que os herdeiros querem derrubar e os arquitetos querem reformar. No centro, uma mesa, com garrafas de cerveja e conhaque, maços de cigarros, charutos, escarradeiras no chão e três malandros, mal encarados, cicatrizes inchadas e voz rouca e úmida, combinando as jogadas, trocando cartas descaradamente, só pra me sacanear. Limpam os lábios na manga imaginária de suas camisetas regata, brancas com manchas de todo tipo.Um garçom observa do balcão, dando gargalhadas catarrentas com uma voz disfônica de tenor. Passam todo o tempo bolinando as belas mulheres nuas que passeiam de mão em mão, nas costas das cartas do baralho roto. Conhecem cada uma, dormem com elas, sonham com elas, têm ciúmes delas. E vão minando minha paciência, até que, imitando o sotaque galego do barrigudo que fica no caixa vou dormir praguejando:- Que bichos escrotos!
No dia seguinte mudo de jogo. Passo pro Gamão e do outro lado do espelho em lcd, senta-se um argentino gordo, com colares de prata e pulseiras de ouro que consegue tirar todos os dados necessários para me sacanear. Conheci esse cara num hotel em Angra, ganhei dele a medalha de ouro num dos três ou quatro torneios que disputei e ganhei naquela semana de férias. Em nosso jogo, logo no primeiro dia, venci por 3x1, placar que mais adoro desde a primeira vez em que vi o Flu ser campeão, em 1964, ao vencer o Bangu na final. Quando eu tirava as duplas nos dados ele ficava puto de la vida:
- Dôble, dôble!
Não falava comigo, apenas resmungava e olhava pro tabuleiro. Bebia um vinho e eu na cerveja ia dando a lavada. Durante toda a temporada, sentava-se no bar com seu tabuleiro profissional com peças de marfim, que carregava dentro de uma maletinha. Como uma putana portenha qualquer, chamava qualquer um pra brincadeira. Menos a mim. Uma vez fiquei um tempão olhando o cara jogar. Não me desafiou. Saí rindo, o que deve ter deixado o maradônico cidadão muito injuriado. Naquele tempo eu jogava contra o meu primeiro macintosh. Inesquecível como o primeiro sutiã que desabracei de uma namorada, o maquinho tinha um irlandês dentro. Jogava contra ele no grau mais alto e quase nunca perdia.
Agora o espírito do gringo patagônico está dentro dessa cpu genérica, só pra ir escolhendo todos os dados contra mim. Mesmo assim, ganho tantas partidas quanto ele. Mas vou dormir puto:
- Bicho escroto!
Quem nunca passou por isso?






